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domingo, 9 de outubro de 2016

Comentários sobre o livro: "O vôo da guará vermelha"


Boa descoberta ao acaso define bem o encontro com esse livro, que lá da prateleira do sebo me fisgou, piscou pra mim e não teve jeito, levei. Li, amei. A autora tem uma escrita simplesmente maravilhosa, poética, cativante e envolvente. Os dois protagonistas nos cativam com suas histórias, suas realidades. Rosálio e Irene. O primeiro, pedreiro. A segunda, prostituta infectada pela Aids. Características essas simplistas demais para demonstrar a complexidade de cada um. Ambos se encontram um dia. Rosálio precisava de alguém que o ouvisse, e  Irene buscava alguém que a desejasse de verdade. E desde o primeiro encontro, um demonstrou a possibilidade de completar aquilo que faltava no outro. Rosálio sonhava em ler e escrever, desde pequeno, mas a vida foi ingrata com ele sem nunca ensiná-lo. O que ele tinha era amor pelas histórias, e histórias reais e inventadas que faziam completar a vida já sem esperança de pessoas como a Irene. Irene sabia ler e escrever, e pôde realizar o sonho de Rosálio. Quase todos os dias eles se encontravam, Irene o ensinava a escrita e Rosálio a agradecia com suas histórias. E assim a vida cinza dos dois foi ganhando cor, preenchida a cada capítulo por títulos como: cinzento e encarnado, roxo e branco, vermelho e prata, azul e amarelo. Muito bonito de ver como é dado valor na palavra, nas narrativas orais e também nas escritas, em como é possível vidas e mundos inteiros se transformarem com a mágica das palavras. Uma ode à literatura, às histórias e à educação.

Maria Valéria Rezende foi um presente muito bom nesse ano, deixando um gostinho de quero mais com suas palavras:

"Enquanto eu era pequeno, não sabia que era triste a minha vida, nãp imaginava outra e por isso não podia saber da minha desgraça. Pois a desgraça é assim, se a gente não sabe nem fala que ela está ali presente, ela quase não existe e já depois que se disse ainda é preciso tempo, contar tudo muitas vezes, pra poder pegar o jeito de se sentir infeliz."

"não diga tanta besteira que o amor não é assim, o amor é como menino que não sabe fazer contas nem de perda nem de ganho, vive descautelado, não tem lei, não tem juízo, não se explica nem se entende, é charada e susto, mistério. "

"Rosálio atende, contente, o pedido da mulher, porque relembrar sua vida lhe permite reviver, agora sem dor, de longe, as coisas que aconteceram e descobrir seus sentidos, cada vez vendo mais fundo o mundo como ele é."

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Comentários sobre o livro "Uma, duas" de Eliane Brum



Pode conter SPOILERS!

Uma, duas, romance de estreia da jornalista Eliane Brum. A história permeia a vida de uma mãe (Maria Lúcia) e uma filha (Laura), escrita com letras vermelhas, literalmente e também simbolicamente. O vermelho das letras representa toda a dificuldade que há na relação dessas duas personagens. O livro sangra sentimentos e ressentimentos, sangra raiva, sangra o sangue da filha que se corta desde menina. 
É um livro forte, um livro com cenas pesadas e permeadas de ódio, um livro que me deixou sem fôlego e, muitas vezes, sem palavras, apenas sentindo junto com as personagens. Nos perguntamos ao início qual o motivo de tanto peso nessa relação mãe-filha? Primeiro nos é apresentados os fatos na versão escrita pela filha. Também de um narrador x. E depois a mãe se revela também com sua voz. E aos poucos a história vai abrindo suas cortinas. Uma relação conturbada desde o princípio, mas também uma relação de amor e ódio, algo doentio para quem vê de fora, mas também com certeza para quem está dentro, um mundo de duas que são uma só, que querem MUITO serem libertas, mas não podem, estão presas por um cordão umbilical. 
A escrita tem um papel muito importante para as personagens. A filha decidiu ser jornalista, quem sabe para poder escrever. Escrevia sobre a vida dos outros, mas agora escreve e sangra a sua própria história. A mãe, após descoberta uma grave doença, começa a escrever sobre sua história, antes da filha vir ao mundo. E depois com a filha. E fica bastante claro uma coisa: somos todos vítimas de vítimas, e tentar achar um culpado por quem somos, talvez seja perda de tempo, apesar de fazer sentido.

"O que eu quero dizer é que não é porque a gente não saiba como fazer as coisas do jeito certo que a gente não ame. Eu não sabia qual era o jeito certo de amar, só isso. Como eu poderia? Não, não estou querendo absolvição nem compaixão [...] mas, gostando ou não, eu também sou filha deste mundo."

Livro diferente das histórias comuns, Eliane Brum nos brinda com sua excelente escrita. Recomendo! 

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Comentários sobre o livro: A invenção de Morel - Adolfo Bioy Casares

  

 CONTÉM SPOILER!

Um homem fugitivo da Venezuela chega em uma ilha deserta, que contem três construções abandonadas: uma piscina, um "hotel-museu" e uma capela. Quando fica sabendo da existência dessa ilha, lhe informaram que todos que lá estiveram estavam mortos, porém, insistiu. Todo dia, como narra em seu relato, há muito trabalho a se fazer na ilha: buscar alimento, fugir da maré, sobreviver. 
Sua rotina é alterada quando percebe que chegam pessoas nessa ilha, vários turistas. Uma se destaca em seu olhar: a morena Fantine. Nosso personagem começa a espiar secretamente esses visitantes, tentando ao máximo não ser visto. Começa a observar Fantine, solitária em certos finais de tarde, observando o mar. Às vezes, acompanhada de um homem, Morel (tais vezes lhe causavam ciúmes). Começa a ensaiar seu encontro com a mulher: o que dizer, como aparecer sem assustá-la, mas cada vez que tenta por em prática seus planos, percebe que foi ignorado pela moça. Será uma tática dela, fingir não vê-lo? Ignorá-lo? 
Após muitas e muitas frustrações como essa, começa a se indagar se essas pessoas podem vê-lo, se não estaria ficando louco, se por ventura estava invisível. 
Frustrado, curioso, nosso personagem começa a escutar e a investigar o que aquelas pessoas dizem, o que fazem ali. Descobre, então, o invento de Morel. Morel, sem que as pessoas saibam, submeteu seus amigos à sua invenção que consistia em eternizá-los em seus cinco sentidos, naquele momento em que estavam na ilha (uma semana), por meio de uma máquina inventada que "fotografava-Filmava-Copiava" aquelas pessoas (porém, sem suas alma e consciência). Eles permaneceriam "vivendo" aquela semana "eternamente". 
Ao descobrir a invenção, o homem percebe então, o motivo de não poder ser visto e nem de interagir com sua amada. Nem mesmo poderia procurá-la em seu país de origem, pois estava morta. Sem motivos para viver, decide então, gravar-se nessa máquina inventada por Morel, em momentos próximos a ela, como se fingisse intimidade a ela, definindo assim, sua eternidade: próximo da mulher amada. Mas aflito, deixa por escrito antes que morra, uma súplica: que se alguém algum dia viesse a inventar uma máquina melhor do que a de Morel, que fizesse com que Fantine tivesse consciência dele na eternidade.


Adolfo Bioy Casares, argentino, escreveu esse livro aos 26 anos, e foi publicado na década de 40. Definitivamente uma obra à frente de seu tempo. Em poucas páginas ele aborda sobre a solidão, sobre os limites da ciência, sobre o desejo incansável do homem em se "eternizar" aqui na terra, o medo de morrer e deixar findar os amores e a vida que aqui se teve.  A aflição da solidão assola o personagem, que não consegue interagir com ninguém ali da ilha. Sem comunicação, sem o toque, sem um olhar de nenhuma daquelas "representações" de pessoas que um dia viveram com corpo e alma, e hoje, através da invenção de Morel, representam infinitamente, dia após dia, a mesma semana, mas sem terem consciência disso. Apenas existem, tranquilas, naquele momento que chamam de "eternidade".

Um trecho do livro que, em minha opinião, melhor representa a ideia que o autor quis passar com essa ficção e que faz refletir:
"A eternidade rotativa pode parecer atroz para o espectador; é satisfatória para seus membros. Livres de más notícias e de doenças, vivem sempre como se fosse a primeira vez, sem recordar as anteriores. De resto, graças às interrupções impostas pelo regime das marés, a repetição não é implacável. [...] Pode-se pensar que a vida é como uma semana dessas imagens e que volta a se repetir em mundos contíguos." [p. 71]
Valeu a leitura!
Até a próxima.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Comentários sobre o livro: "Fazes-me falta", de Inês Pedrosa






Fazes-me falta é um livro narrado por duas vozes: um homem e uma mulher que se amaram. Amaram-se no passado pois a mulher morreu jovem, aos 37 anos, e o que restou são essas vozes: ele como sobrevivente e que sente a falta dela, ela agora sem corpo, mas que permance vendo tudo. Os capítulos se alternam entre ele e ela (ambos sem nome, ele a chamava de Sininho), a pensar no passado, no que viveram, no que não puderam ser um para o outro. Traz as crenças, as convicções, as manias de cada um, as lembranças do passado. Apesar de não estarem mais juntos, com a morte dela, ambos se vêem interligados, formando um grande elo difícil de ser quebrado ou superado. A morte trouxe a sensação de impotência, de erro, de não ter feito o melhor enquanto havia tempo, fazendo parecer todas as coisas que os separaram em vida apenas bobagens.

Este romance português é escrito em uma prosa poética, densa, com muitas palavras e expressões típicas do português de Portugal, portanto, de difícil avanço. Li várias críticas falando bem do livro e da escrita de Inês Pedrosa. Sim, ela é uma escrita bela e um tanto rebuscada, mas não me fisgou muito, fiquei me arrastando para terminar a leitura. Mas é interessante que se conheça a autora e esse estilo de narrativa, foge dos clichês romanticos de senso comum. Ou talvez era eu, que li no momento errado da vida; sabe como é, os livros são sempre diferentes em cada momento que o lemos, não que eles mudem, mas somos nós quem mudamos e o lemos com outros olhos.

Uma pequena amostra do que o livro reserva a seu leitor:


"A dor precisa de um corpo. Limites de pele, unhas, ranho, suor. A incapacidade de sair, a coragem irremediável de viver o tempo. Paciência, peso, cérebro ardendo."

 "Sempre fui nostálgica, sobretudo do que não chegou a acontecer. Dos deslumbramentos a haver. Concentra-te na felicidade, para que eu possa existir nela ainda contigo."

"Quando tu vivias, eu podia acreditar na alma, lama, mala interestelar, o caraças que tu quisesses. Porque a gente olhava para ti e via essa coisa transparente e firme, esse nó de sangue, secreções e luz a pulsar como um farol. [...] Fazes-me falta, merda - já te disse?"

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Comentários sobre o livro "Todos nós adorávamos caubóis"






Esse livro foi, sim, escolhido pela capa. Eu amei essa capa. E amo os livros da Companhia das Letras. Então já foi suficiente para começar a leitura, e as 192 páginas foram devoradas em dois dias. 

Todos nós adorávamos caubóis é uma road novel, ou seja, uma história que se passa em uma viagem, escrita pela Carol Bensimon. Se você já assistiu Thelma & Louise vai saber do que eu estou falando.  Cora (a narradora) e Júlia finalmente conseguem realizar um sonho de anos atrás: viajar por cidadezinhas "nada interessantes" do interior do Rio Grande do Sul. 
A narrativa alterna o presente (a viagem) e o passado entre as duas garotas, que se conheceram na faculdade, tiveram um relacionamento e acabaram se separando por circunstâncias e escolhas da vida.  Algum tempo depois, elas voltam a se falar e combinam a tão sonhada viagem, sem saber o que ela pode reservar para as duas, que já não tinham mais contato.

A maneira como a Carol Bensimon escreve é deliciosa, e transforma uma história simples em algo a ser deleitado. A temática entre um relacionamento homossexual entre duas mulheres também era algo incomum nas minhas leituras (não me recordo de ter lido algum livro que tratava sobre, exceto A cor púrpura, leitura que comecei e não finalizei). O livro vai se desenvolver ao redor do conflito psicológico da nossa narradora Cora, seus medos, sentimentos e inseguranças; suas atitudes e formas de lidar com a vida e com as situações. Além de fornecer a nós, leitores, belas descrições dos lugares por onde passam essas duas viajantes em busca de um resgate ao passado, em busca de um possível futuro?

Recomendo a leitura e a escritora, que em 2012 foi selecionada como uma dos 20 melhores jovens escritores brasileiros, de acordo com a revista britânica Granta.



quarta-feira, 6 de julho de 2016

Comentários sobre o livro "A obscena senhora D", de Hilda Hilst

O que falar dessa leitura?



A senhora Hillé, ou senhora D, D de Derrelição (abandono, como a chamava seu amado Ehud) é uma mulher de uns sessenta anos com uma boca suja e tanto, que eu A-D-O-R-E-I. 

A narrativa é construída pelo fluxo de consciência da Senhora D. em um ritmo frenético. Louco. Com diálogos com o amante/marido? morto, com os vizinhos que a odeiam, com mais alguém na sua casa que não nos é dado conhecer. Apesar de curto, o livro é denso, visceral. A vida, para ela:

                     "foi uma aventura obscena, de tão lúcida"

Senhora D., que habita o vão da escada de sua casa, nos faz entrar nesse seu estranho mundo de diálogos com o defunto sobre o passado, sobre a vida, sobre Deus e os mistérios de sua existência, sobre sexo... E tudo nos leva a crer que perdeu a lucidez? Mas será mesmo? Perdeu a lucidez ou perdeu a vontade do agora? Perdeu-se no passado e nas recordações? Perdeu-se na fé, na nostalgia do sentir? Perdeu-se nas perguntas sem respostas?

Ehud, sempre querendo que Hillé lhe preparasse uma xicara de café. Hillé sempre ocupada com sua lingua frenética, com suas perguntas incessantes. 


“Senhora D, a viva compreensão da vida é segurar o coração. me faz um café.”


Desconfortável, atingida pela escrita pontiaguda de Hilda Hilst, foi como me senti ao terminar este livro. E já com vontade de fazer uma releitura, é tanto para absorver nessa pequena-gigante edição da Coleção da Folha, com 52 páginas da mais pura qualidade.
E fica um gostinho:


 “Por que o ouro é ouro? Por que o dinheiro é dinheiro? Por que me chamo Hillé e estou na Terra? E aprendi o nome das coisas, das gentes, deve haver muita coisa sem nome, milhares de coisas sem nome, e nem porisso elas deixam de ser o que são, eu se não fosse Hillé seria quem? Alguém olhando e sentindo o mundo.”



segunda-feira, 27 de junho de 2016

Releituras e superação de traumas: Menino de Engenho - José Lins do Rego

Oláaaa meus queridos!!! 

Hoje eu vou contar um pouquinho pra vocês de como foi reler um livro que era leitura obrigatória na quinta série e que me traumatizou bastante, me afastando por algum tempo da literatura. Fui voltar a gostar mesmo de ler somente na oitava série.
Não sou acostumada a reler livros, pois acredito que há tanto no mundo para ser apreciado, mas esse livro me causou tanto estranhamento, que 15 anos depois a coragem e a curiosidade bateu, e esse enfrentamento pôde me mostrar o quanto mudamos e evoluimos ao longo da vida. 

Esse livro é O Menino de Engenho, de José Lins do Rego.



Vou colocar em tópicos algumas das importantes temáticas que consegui destacar! (mas tem muito, muito mais para se extrair desse livro).

Imaginário popular (Lobisomens, espíritos...)
O livro faz referência à crenças populares como a existência de lobisomens. No decorrer da narrativa, os espíritos de mortos se tornam mais assustadores que os lobisomens, presentes para assombrar os vivos.

Contação de histórias, fascínio e arte
 Velha Totônia era uma senhora que percorria os engenhos do nordeste contando suas histórias que fascinavam os meninos, principalmente Carlinhos (que mantinha os olhos vidrados e o coração aberto para as narrativas da velha, narrativas feitas com maestria). Verifica-se a presença da oralidade na sociedade, da contação de histórias com fonte de cultura, de lazer e de perpetuação das histórias.

Vida em contato com a natureza
Enquanto relia Menino de Engenho, pude ser grata por entender como é a vida em contato com a natureza (não naquela época e nem naquela região do país, mas com a natureza em si). Muitas crianças que leem esse livro nos dias de hoje não sabem e não podem imaginar como pode ser bom sentir o gosto de uma fruta colhida no pé, montar em um carneiro, correr com os pés descalços no barro.

Engenhos de açúcar e história do Brasil
O livro retrata um período histórico do Brasil colônia, assim como o regime escravocrata, narrando sua história no Nordeste do país. Também conta que após a abolição da escravatura, a maioria dos escravos continuavam com seu status quo, ou seja, continuaram a trabalhar para seus patrões, em troca de ter um moquifo onde dormir e o que comer. Retrata o clima nordestino, as secas, as enchentes, a dominação do homem branco sobre o homem negro. Isso classifica essa literatura como um ótimo complemento para as aulas de história (o que explica a leitura obrigatória nas escolas...).

Perdas e Tristeza
A perda estava muito presente na vida do menino de engenho, o Carlinhos. Aos 4 anos teve que lidar com a morte da mãe. Depois com a morte de uma prima com a qual se afeiçoou, e posteriormente com o casamento e partida de sua nova "mãe", a Tia Maria. Tantas perdas provocavam uma profunda tristeza em Carlinhos, que passava horas sozinho no engenho, com seus pensamentos enrolados em todos esses sentimentos. Era um menino pensativo, melancólico, que sofria de asma (será que tal doença não poderia ser a tristeza refletindo no corpo do menino?).

Tipos de conhecimento
Carlinhos parte tarde para um colégio internato, aos 12 anos, sabendo pouco das letras, dos números e das matérias ensinadas na escola. Porém, com um vasto conhecimento de mundo, adquirido em sua vida no engenho.


Após terminar a leitura, parti para uma reflexão dos possíveis motivos por eu ter traumatizado com o livro aos 10 anos. Penso que pode ser pelo vocabulário regional específico do nordeste, da época e dos engenhos (mesmo que ao final do livro tenha um glossário com várias das palavras difíceis encontradas). A linguagem não é muito comum e facilitada para a idade em questão, e a história não é divertida para agradar crianças, é uma história realista, com temas mais pesados sobre a vida e o despertar da sexualidade e do crescimento como pessoa.
Valeu muito a pena a releitura. Viva o menino de engenho e as segundas chances :)


segunda-feira, 20 de junho de 2016

Mrs. Dalloway - Virgínia Woolf



Diria que Mrs. Dalloway é o retrato de uma época, de uma sociedade burguesa inglesa pós-guerra mundial. Toda a história se passa em um único dia (recurso usado por outros autores como James Joyce), no qual Clarissa Dalloway dará uma festa em sua casa para a alta sociedade. O livro inicia com uma simples ida a floricultura até a festa que é dada pela protagonista em sua casa à noite. Para contar essa história, Virgínia Woolf usa do fluxo de consciência, ou seja, é uma técnica literária na qual o autor transcreve o processo de pensamento de um ou mais personagens, associando ideias e fazendo "hiperlinks" mentais.
A leitura não flui muito bem, mesmo sendo um livro de 188p. [na Edição da Folha], justamente por causa da maneira da narrativa: excesso de pensamentos e a troca constante de pessoas [junto com seus pensamentos]  e lugares. Este livro exige um pouco mais do leitor, pois primeiro as personagens são jogadas no texto, para depois você compreender quem são e a sua relação na história. Esse livro me lembrou a escrita de Lygia Fagundes Telles, em seu livro "As horas nuas", Em ambos as protagonistas são mulheres de meia-idade, com amores do passado, relação mãe-filha não muito boa...
A leitura é válida com certeza, mas não espere devorar com facilidade as palavras de Virgínia. 

Um fato curioso retirado do livro Conversando com Mrs. Dalloway (vide referência ao final):

Virgínia Woolf perdeu a mãe ainda na adolescência, e uma amiga muito devota chamada Katharine  "Kitty" Maxse prometeu cuidar de Virginia e sua irmã Vanessa. Katharine era uma socialite de almanaque, que seguia as regras de etiqueta dessa sociedade e cuja vida girava em torno das expectativas sociais. Virgínia nunca se deu muito bem com Kitty, pois tinham personalidades bastante diferentes. Muitos anos depois, Kitty veio a falecer com um tombo em sua casa. Nada tirava da cabela de Virgínia a suspeita de que fora suicídio, e que talvez Kitty não fosse assim tão perfeita como parecia. Kitty serviu de inspiração para Virgínia ao criar sua personagem que depois de um conto, ganhou lugar em um romance. 


REFERÊNCIA:

Johnson, Celia Blue. Conversando com Mrs. Dalloway:  a inspiração por trás dos grandes livros de todos os tempos. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013. 


Obs: Esse livro é muito interessante. Traz várias curiosidades sobre a inspiração de grandes clássicos da literatura e seus processos de escrita, Vale a pena conferir!!!


sábado, 11 de junho de 2016

Filme: Ela (her)


Ano de lançamento no Brasil: 2014
Direção: Spike Jonze
Gêneros: Romance; Drama; Ficção científica
Nacionalidade: EUA
Oscar de Melhor Roteiro



UAU! Esse filme é um filme que me levou a refletir sobre muitas coisas, tão difíceis de serem expressadas, mas vou tentar. Mas antes, já aviso: contém SPOILER!!!
Mãos à obra:

* Como é o amor nos tempos atuais? As tecnologias unem ou separam as pessoas?
Feita para romper a fronteira do tempo e espaço, a tecnologia, os computadores, os smartphones revolucionaram o modo de viver das pessoas. A comunicação se tornou fácil, em tempo real, diferente das cartas que podiam demorar meses ou até mais para chegar ao destino esperado. As notícias corriam na velocidade dos cavalos, e hoje, em megas. Qual o impacto que essas tecnologias causam nas relações interpessoais? Acredito que, na impossibilidade do contato físico, do cara a cara, a tecnologia facilitou muito as relações humanas. Vida simplificada. Mas ao mesmo tempo, de certo modo, banalizou coisas de uma maneira não saudável. 
No filme,inúmeras vezes você vê as pessoas sozinhas, acompanhadas apenas de suas tecnologias, falando em voz alta com seus aparelhos enquanto se locomovem, caminham nas ruas e no metrô. Interação entre as pessoas são raras neste contexto tecnológico representado no filme, mas mesmo assim, deixarão de ser uma necessidade humana? 

* A tecnologia pode criar relações reais? O que é real?
Sendo um filme de ficção científica, em muitos momentos fiquei extasiada com a situação retratada no filme: um homem que adquire um software tão interativo e inteligente que acabam se apaixonando e entrando em um relacionamento sério. Voz atraente, onipresença, inteligência, bom-humor, compreensão, sensibilidade: são características que a evolução tecnológica proporcionou aos seus produtos. Samantha foi um desses "produtos" tecnológicos que, de tão perfeito, causou sentimentos fortes em Theodore, que ao final do filme afirma nunca ter amado alguém como amou Samantha. O amor é real, é um sentimento que se pode ter pessoas, coisas, momentos, fazeres. Tamanha era a imitação da inteligência humana do novo software, que foi causa de uma paixão, mas em um plano não palpável. Era um amor em outra esfera, nas entrelinhas do mundo. Era múltiplo, pois Samantha conversava com mais de 8.000 pessoas ao mesmo tempo, realizando seu trabalho, e se apaixonou por 600 e poucos. Poliamor, talvez uma nova característica dessa revolução tecnológica. Era real o sentimento deles?

*  Términos de relacionamentos
No filme, o elemento término de relacionamentos é abordado constantemente. A solidão de Theodore, sua dor e sua dificuldade de seguir em frente depois de seu casamento findado. A amiga de Theodore, Amy, também passa por um rompimento amoroso, e o filme retrata maneiras de se lidar com essa situação. 

* Sensibilidade masculina
Este filme pretende acabar com aquele velho preconceito: homens não são sensíveis, homens não choram. Theodore trabalha como escritor de cartas e cartões, profissão que realiza com maestria. Difícil era não se emocionar com seus escritos. As pessoas, em suas relações, perderam a capacidade de escrever, de verbalizar seus sentimentos, seus momentos, que foi preciso inventar uma profissão para algo que poderia ser tão simples e prazeroso entre as relações humanas? O próprio Theodore, como profissional, escrevia cartas maravilhosas a seus clientes. Mas na vida pessoal dele, ao final do filme, ele consegue se libertar de sentimentos que o estavam deixando de seguir a vida, consegue escrever para sua ex esposa tudo o que gostaria de lhe dizer. Essa atitude pode ser representada como um marco em sua vida, da sua libertação do passado e do seguir em frente. 

* No final, todos querem o mesmo: a presença
Respondendo ao questionamento lá em cima. se a interação humana deixará de ser uma necessidade humana?
Não, infinitamente não, apesar da evolução tecnológica ter caminhado dessa maneira, o toque, o ombro amigo, o cara a cara continua sendo o que a alma humana espera constantemente: ser abraçada por outra alma, mas, também, por outro corpo, O final do filme é esse: Theodore e sua amiga Amy, sentados juntos vendo o por-do-sol (ou era o nascer dele? - não me lembro).

E você que já assistiu o filme Ela (Her), teve alguma outra reflexão? Compartilha aqui então ;)
Até o próximo post.